segunda-feira, 21 de julho de 2014

Adeus


Minha pequena homenagem a esse escritor que me ensinou tanto através de seus textos.

Adeus Rubens, até breve.




Sobre Deus - Rubem Alves

Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens tem sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais. Disseram que ele tem uma câmara de torturas chamada inferno onde coloca aqueles que lhe desobedecem, por toda a eternidade, e ri de felicidade contemplando o sofrimento sem remédio dos infelizes.
Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.
Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer”. Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhos, disse: “Eu não disse?”. Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.
Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias. Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes.
Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.


- fefa rodrigues -


terça-feira, 8 de julho de 2014

Será que estamos nos curando do Complexo de Vira-latas?

Me lembro de quando eu era criança, nos idos da década de 80. Era impensável usar verde-amarelo, era brega, era “coisa de baiano”. Legal eram os tênis Nike, legal era usar camiseta com a bandeira dos EUA. Eu tinha um estojo trazido do Paraguai com o desenho daquela bandeira.

Na época, nossa vizinha, Dona Ida, com seus oitenta e poucos anos e toda tarde colocava o disco de vinil tocando o hino nacional. A criançada da rua ria ouvindo aquilo e zombava daquela atitude ridícula.

Quando tinha jogo de futebol internacional e os jogadores se perfilavam para cantar o hino (ainda não existia a lei que obriga o hino antes dos jogos no estado de São Paulo), dava para ver claramente que eles não sabiam a letra. Ninguém sabia. Mas se no final de um filme tocava o hino dos EUA a gente se arrepiava, era até capaz de chorar. Tinha até um “Parabéns pra você” na melodia do hino norte-americano que agente cantava nas festinhas de aniversário.

Não sei exatamente quando isso começou a mudar, mas desconfio que foi quando quitamos nossa dívida com o FMI. Acho que isso trouxe uma sensação de estarmos quites, de não sermos devedores. Nosso nome de brasileiro enfim estava limpo.

O mundo já não nos definia mais como terceiro mundo, nos tornamos emergentes.

Então, começamos a perceber como, aqui e ali, vários brasileiros famosos brilhavam, e como muito anônimos eram queridos em outros países, e, apesar da frase “tinha que ser brasileiro” viver se repetindo por ai, na maioria das vezes pela boca dos próprios brasileiros, uma sensação de orgulho nacional começou a nascer.

Então veio o grande teste, a realização da copa do mundo, e muitos juraram que seria o momento de provarmos nossa incompetência para o mundo. Porque nós somos brasileiros, não fazemos nada direito, somos inferiores, misturados, temos cores na pele, nos olhos e nos cabelos, comemos feijão, não temos nenhum prêmio Nobel, somos uma vergonha, não somos mais do que vira-latas.

Então, eis que a Copa está chegando ao fim e, incrivelmente, nenhum turista foi assassinado ou assaltado por um taxista (aliás, um taxista ficou conhecido por devolver ingressos, não foi?), não houve caos no metrô, no trânsito ou nos aeroportos, nenhuma arquibancada caiu, não houve brigas nos estádios que, diga-se, estiveram totalmente lotados em todos os jogos.

É, este é o nosso país, lindo, grande, cheio de gente legal e bonita, que veste verde-amarelo e canta o hino nacional com lágrimas nos olhos, que tem problemas a resolver sim, mas que, agora que se orgulha de si mesmo, sabe que tem competência para resolvê-los.

A seleção pode ganhar ou não a Copa, mas o Brasil – que muita gente adorou ecoar que não se limita a futebol e a seleção – ganhou muito, principalmente respeito próprio.

Beijos;
Fefa Rodrigues

PS: o texto do Nelson Rodrigues “Complexo de Vira-latas” é muito interessante e no youtube tem um vídeo baseado no texto que fala das origens dessa baixa-estima que sempre pairou sobre a Pátria Amada.



sábado, 5 de julho de 2014

O signifciado das lágrimas




Eu não entendo essas criticas a forma emocionada como os jogadores cantam o hino nacional. Pra mim, a melhor parte dos jogos do Brasil têm sido ver o povo cantando o hino à capela, as pessoas emocionadas e principalmente as crianças cantando com a mão no peito.

Bonito era quando brasileiro tinha vergonha de vestir verde-amarelo, não sabia a letra do hino e adorava desfilar com camiseta com a bandeira dos EUA??

Como diria o Renato Russo "a lágrima é verdadeira" e o orgulho de ser brasileiro representado por essas lágrimas é o que me faz ter certeza de que sim, o Brasil tem jeito, e quem pode dar um jeito nele somos nós, os brasileiros....


BORA BRASIL!!! ORGULHO DE SER BRASILEIRA!!!!

Beijos,
Fefa Rodrigues


terça-feira, 1 de julho de 2014

Mil cairão ao teu lado – Susi Hasel Mundy

Não há maior elogio do que ganhar um livro de presente. E esse livro foi um presente da Raissa, uma nova amiga que compartilha comigo o gosto pela literatura e que, sabendo do meu amor por livros e meu interesse pela II Guerra, me fez esse imenso elogio.



Eu gosto de todo tipo de literatura sobre a guerra, mas gosto especialmente de histórias reais de pessoas que tiveram coragem suficiente para não concordar com o regime nazista, mesmo que isso significasse colocar sua própria vida, e muitas vezes a vida de sua família, em risco.

E esse livro conta a história de uma dessas pessoas, ou melhor, de uma família inteira que decidiu permanecer fiel a seus princípios. É um livro de cunho religioso, já que aponta de forma especial as lutas daquela família para viver sua fé em meio à guerra, mas, independentemente do posicionamento religioso de cada um, é uma história que nos ensina muito.

Essa é a historia da família Hasel, e de como eles enfrentaram aqueles dias tenebrosos. Os Hasel eram Adventistas do Sétimo Dia, isso significa que eles tinham muitos costumes parecidos com os dos judeus como a guarda do sábado e não comiam carne suína. Além desses costumes, eles eram cristãos de verdade, ou seja, seguiam todos os princípios de respeito e amor ao próximo pregados pelos evangelhos.

Franz Hasel, o pai da família foi convocado nos primeiro dias da Guerra para servir na Companhia 699. Conhecida como Pioneiros, eles eram a “equipe de frente” e chegavam aos territórios inimigos nos primeiros momentos, já que sua função era construir pontes onde fossem necessárias e reformar aquelas destruídas pelo inimigo em retirada.

Em meio a soldados que acreditavam completamente em Hitler e na superioridade e vitória alemã, Franz foi colocado diversas vezes em situações em que ele teve que optar entre seguir ordens ou seguir seus princípios, porém, sempre, de uma forma ou outra, ele conseguia se sair bem e se manteve fiel até o fim e, mesmo quando por algum momento ele se desviava desses princípios, por mínimo que fosse, ele tinha consciência de que não poderia deixar a situação determinar suas ações.

Quando o batalhão de Franz foi mandado para a Rússia, a situação ficou muito mais difícil. Seu batalhão começou a ser seguido pelos homens da SS, e foi então que Franz foi apresentado à realidade do extermínio de judeus. Franz percebeu que já não se tratava mais de manter seus princípios e rituais religiosos, mas de viver na prática aquilo em que ele acreditava, salvar vidas inocentes, encarando todas as conseqüências.

Enquanto a guerra se arrastava Helene, esposa de Franz, e seus três filhos permaneceram em Frankfurt, onde sofriam constantemente o assédio do partido nazista que exigia sua filiação, e da Liga das Mulheres que a importunava diariamente em razão da família não se envolver nas atividades do partido. Como Helene se recusava a se filiar, todo tipo de problemas acontecia com ela, atrasos no recebimento do soldo a que tinham direito, dificuldades para conseguir alimentos, roupas, tratamento médico e ainda a suspeita de que ela e sua família eram judeus disfarçados em razão da guarda do sábado.

Assim como aconteceu com Franz, em certo momento eles perceberam que seus princípios iam além da guarda dos costumes e rituais, e exigiam que eles se movessem em direção aos judeus enquanto sofriam os pesados bombardeios dos aliados.

Nessa história toda, me parece que quem mais sofreu com a guerra foi Helene e seus filhos, desamparados em uma cidade hostil, sem ter a quem recorrer, mas sempre mantendo a perseverança.

Como disse acima, independentemente do posicionamento religioso de cada um, é uma história que vale a pena ser lida, uma história que nos fala sobre caráter e honra e sobre a coragem de fazer o que é certo quando ninguém mais o faz.

Certa vez ouvi uma frase – atribuída a Martin L. King, mas eu nunca confirmei a autoria – e que se encaixa perfeitamente nessa história: “Se você não está pronto para morrer por algo, você não está pronto para viver”.

Beijos e boas leituras.

Fefa Rodrigues