segunda-feira, 21 de maio de 2018

1986





1986

- Só se vive uma vez cara – André incentivou o amigo enquanto enfiava um punhado de batatas ruffles na boca seguido de um longo gole sua coca-cola – É a sua última chance, se não for agora, não vai ser nunca e você vai se arrepender!

Lucas respirou fundo, estava prestes a fazer a coisa mais aterrorizante de toda a sua vida, e sabia que, por alguma razão estranhamente misteriosa, o amigo estava certo, aquela era sua última chance.

Em todos os seus quatorze anos de idade nunca havia sentido tanto medo e tanta certeza ao mesmo tempo. Sabia que todas as probabilidades estavam contra ele, mas não queria ser apenas mais um covarde, tinha que arriscar!

- Tá certo. Eu consigo – disse mais para si mesmo do que para o amigo que ficaria ali para assistir de camarote seu maior vexame ou sua maior vitória.

O plano era simples. Apertaria a campainha e, caso não fosse ela mesma a atender a porta, pediria gentilmente para falar com Leticia, então quando ela aparecesse, leria para ela as palavras que havia escrito no pedaço de papel que ele apertava na mão que suava frio.

Letícia era a menina mais linda que ele já havia visto. Se apaixonara por ela desde a primeira vez que a vira, há dois anos, naquele dia em que entrara na cozinha de sua casa correndo, suado e sujo depois de uma tarde jogando futebol com André, seu melhor amigo.

Enquanto riam e tiravam alto, Lucas tirou da geladeira uma garrafa de refrigerante gelado e os dois amigos beberam direto do bico.

André deu um sonoro arroto no exato momento em que Marília, a irmã mais velha de Lucas, entrava na cozinha seguida de seu séquito de amigas.

Enojada, Marília gritou pela mãe, acusando os dois meninos de serem porcos nojentos, enquanto as outras meninas repetiam a cara de nojo.

Letícia se aproximou de Lucas rindo, mas sema parentar o asco que estava estampado na cara das outras e disse de maneira casual:

- Marília, deixa ele em paz – então lhe deu uma piscadela e remexeu seu cabelo – Isso é coisa de menino, não é garoto?

Lucas ficou estático enquanto as meninas saiam pela porta e André ria a descontroladamente de sua cara de otário.

O garoto tímido e que até então nunca havia se interessado por meninas, descobriu um mundo novo e, desde então, cada vez que Letícia visitava sua casa, ele se perdia olhando para aqueles olhos de pestanas compridas e para aquele sorriso que parecia zombar do mundo todo.

Com o tempo, Lucas passou a reparar em outros atributos de Letícia. Três anos mais velha, ele se perdia em suas curvas enquanto o balanço do seu corpo o hipnotizava e como seu cheiro o levava para outro mundo.

Podia ser loucura, mas ele tinha certeza de que ela o olhava de forma diferente, era a única que parecia ver nele mais do que só um garoto, apesar de nunca o chama-lo pelo nome.

“E então, garoto?” era como ela falava, cada vez que ela pronunciava aquelas palavras com seu jeito mistérios, Lucas pensava ver algo mais naquele sorriso indecifrável.

Agora ele tinha 14 anos, sentia que não era mais apenas um garoto, mesmo para aquela mulher como ela.

Mas, no dia em que iria convidá-la para a festa de fim de ano da escola, soube que ela partiria no dia seguinte para estudar no exterior.

Aquele era seu último dia na cidade. Aquela era a última chance de Lucas.

Apertou a campainha com as mãos trêmulas e suando as bicas, a porta se abriu.

- E então garoto? – lá estava ela, linda como nunca e ele estancou, não conseguiu se lembrar de nenhuma palavra, apenas ficou ali admirando o belo sorriso, os olhos a boca.

Não sabe dizer por quanto tempo ficou assim, até que foi tirado de seu devaneio pelo som de buzinas que tocavam ás suas costas. Eram os amigos de Letícia que estavam ali para leva-la para a festa de despedida.

Ela sorriu, passou por ele sorrindo com um leve toque de frustração, remexeu seus cabelos e se despediu.

- Até mais Lucas – pela primeira vez ela o havia chamado pelo nome e, sem saber o que fazer, ele continuou ali pateticamente parado, observando ela se afastar sem olhar para trás, entrar no carro que a aguardava e trocar um selinho com o cara que dirigia.

Só então se lembrou que no pedaço de papel amassado na palma de sua mão, estavam os versos bobos e rimados que ele havia escrito para ela.


(...)

Lucas sorriu enquanto testava o microfone. Uma pequena multidão já tomava conta do bar. Era engraçado como ele tinha deixado de ser um garoto introvertido e tímido e se tornado o vocalista de uma banda de rock que andava fazendo o maior sucesso nas festas da faculdade.

O lugar estava cheio naquela noite e tudo indicava que seria um ótimo show. Já sentia a empolgação que tomava conta dele sempre que subia ao palco para cantar, era como se aquele fosse o seu lugar no mundo.

O guitarrista tocou os primeiros acordes e ele começou a cantar. Sua voz era forte e aveludada.

A banda revezava músicas conhecidas com composições próprias e o público, especialmente as mulheres, iam à loucura quando ele cantava aquelas melodias que falavam de amores que nunca davam certo.

De repente, em meio à multidão, ele reconheceu aquele olhar.

Letícia.

Seu coração pareceu parar por alguns segundos, então ela retribuiu seu sorriso e ele cantou com toda a sua alma.

Terminada a última canção, ele deu sinal para os músicos pedindo que tocassem mais uma, aquela música não estava no repertório da noite, mas eles já haviam ensaiado antes.

Lucas sabia que o tempo já tinha acabado, mas não se importou, ninguém iria censurá-lo naquela noite.

A melodia suave envolveu a plateia que ouviu em êxtase aquela música que falava sobre o amor de um garoto por uma menina de olhos e sorriso lindo. Ele cantou a música toda olhando diretamente para Letícia, estava lhe dizendo tudo que queria ter dito naquele dia há alguns anos.

Encerrado o show, ele se livrou o mais rápido que pôde das fãs que queriam lhe dar um abraço, um beijo ou algo mais, e correu em busca de Letícia.

Procurou-a por toda parte sem encontrá-la.

Será que havia sonhado, ou tinha perdido mais uma vez sua chance?

Desanimado, voltou para o camarim de mau humor e arrumou suas coisas para sair. Todos iriam para uma festa numa das nas muitas Repúblicas que coalhavam o campus, mas ele tinha perdido todo o entusiasmo.

Esperou que todos saíssem dando desculpas esfarrapadas a seus amigos que não entendiam o que havia acontecido até que ficou sozinho.

Guardou seu equipamento e, antes de ir para casa, parou no bar para tomar alguma coisa.

- Hei Lucas, não sei se te interessa, mas uma das suas fãs deixou um bilhete para você e me pediu para eu te entregar – disse o barman enquanto servia a bebida.

Lucas pegou o guardanapo de papel sem muita vontade, então abriu.

Nele, havia um número de telefone anotado e, embaixo, numa letra delicada e firme, a pergunta “E então, garoto?

(Fim)

Nota: Conto inspirado na música Olhar 43 da banda RPM e uma humilde tentativa de deixar o universo sombrio em que costumo habitar e escrever um romance com final feliz!!


- fefa rodrigues -




sábado, 19 de maio de 2018

Estigma





Estigma

Estigma

Há cerca de dois meses Leonel desfrutava de seu idílio no interior.

Membro de uma rica família que havia abandonado a pequena cidade de São Bento para viver na capital há muito tempo, chegara ali despertando a curiosidade dos moradores e a desconfiança dos arrendatários de suas terras, mas logo conquistara a simpatia de todos.

Instalara-se no casarão de janelas altas, portas de madeira e paredes caiadas que se mantinha em ótimo estado, comprovando que, mesmo sem qualquer supervisão, os empregados faziam seu trabalho.

A vida mansa na pequena cidade tinha mudado seus hábitos. Dormia e acordava cedo, fazia longas caminhadas e passava horas conversando com os moradores mais velhos enquanto tomava notas para seu livro.
Aprendera a apreciar o ar puro e o silêncio.

Quando voltava para casa, encontrava a refeição servida. Nunca havia se alimentado tão bem e de maneira tão saudável e isso fazia com que se sentisse revigorado.

Sem as preocupações que o atormentavam na cidade grande, aquele prometia ser o seu tão sonhado ano sabático, até que sua paz foi interrompida.

No meio da madrugada, foi despertado de seu sono tranquilo por um baque surdo e continuo que tentou em vão ignorar até que compreendeu que aquele som intruso não o deixaria dormir.

Obrigou-se a se levantar e verificar o que estava acontecendo.

Envolveu-se em seu roupão azul e bateu com força no interruptor, mas as luzes não acenderam.

Afastou as cortinas e, ao olhar pela janela, percebeu que a cidade toda estava às escuras.

O batuque enlouquecedor continuava intenso, então decidiu enfrentar a escuridão.

Vagou pela casa em busca daquele som que parecia fugir sempre ele se aproximava para ressurgir novamente em outro ponto até que, cansado de zanzar pelo escuro e depois de topar duas ou três vezes com o dedinho em algum móvel, resolveu voltar para o quarto.

Naquele momento, percebeu que a luz do luar, ao penetrar pela janela, projetava uma sombra alongada que delineava um corpo no chão de madeira da sala.

Sobressaltou-se com a imagem e correu até a janela. Olhou para fora e constatou que realmente havia algo lá, não uma pessoa, apenas um vulto que o encarou por um breve momento e depois se afastou lentamente se fundindo à noite que engolia tudo ao seu redor.

Sentiu-se paralisado por uma fração de segundos, o coração aos pulos, até que, no instante seguinte, todas as luzes da cidade voltaram a brilhar ao mesmo tempo.

Ainda tomado pela sensação desagradável de estar sendo observado, teve a certeza de que o vulto estava agora às suas costas e chegou a sentir o leve toque de longos dedos gelados em seu pescoço fazendo os pelos de sua nuca arrepiarem.

Correu para o quarto sem olhar para trás e trancou a porta atrás de si. Deitou-se na cama e por um bom tempo rolou de um lado para o outro, mas aquele barulho que agora vinha nitidamente do telhado acima de sua cabeça somado ao temor que o vulto havia lhe causado não o deixava pegar no sono.

Convenceu-se de que o único jeito seria apelar para um de seus comprimidos.

Desde aquela madrugada, o mesmo batuque retornava, portanto, Leonel pediu a um dos empregados que revirasse o casarão em busca de qualquer coisa que pudesse ser a razão daquele incomodo, porém, nada foi encontrado.

O empregado resolvei passar a noite na casa para que, quando o batuque recomeçasse, ele pudesse encontrar sua origem com mais facilidade, entretanto, para desalento de Leonel, aquela madrugada transcorreu no mais completo silêncio.

Na manhã seguinte, ao perceber o olhar de descrença de todos, Leonel achou por bem dar o assunto por encerrado e suportar sozinho, contando apenas com ajuda de seus comprimidos, a companhia daquele eco seco e ritmado que chegava toda noite e começava a se tornar agourento.

Não demorou a que as noites mal dormidas e o uso constante de medicação cobrassem seu preço.

Leonel foi tomado por uma forte enxaqueca que o impedia de fazer suas caminhadas, de sair para conversar com os moradores da cidade e de trabalhar em seu livro.

Tentou escapar dos remédios fortes e controlados tomando chás e fazendo uso das receitas caseiras que a cozinheira preparava, mas nada aplacava aquela dor que fazia sua cabeça latejar até ele quase perder os sentidos.

Certa manhã, decidiu enfrentar a dor excruciante e caminhar até o mercado municipal onde poderia comprar algumas frutas e legumes frescos, além de aproveitar para respirar um pouco de ar puro.

Ao sair de casa, sentiu que o contato da luz do sol com sua pele lhe fazia bem. Respirou fundo sorvendo com prazer o ar matinal e andou sem pressa pelas poucas quadras que separavam o casarão do mercado.

Muita gente parava para conversar com Leonel e lhe desejar melhoras, sugerir alguma receita que poderia ajudar com as dores de cabeça ou para contar suas próprias experiências e de seus familiares com as mais diversas doenças, fazendo-o sentir-se bem e acolhido, como em seus primeiros dias na cidade.

Ele ouvia atentamente uma das histórias que lhe contavam quando uma forte fisgada nas costas o fez arfar. A mulher que tagarelava à sua frente perguntou se ele estava bem, mas ele não teve tempo de responder.

Uma sequência de açoites invisíveis fizeram com que ele caísse de joelhos gritando de dor enquanto riscos vermelhos se formavam em sua camiseta branca marcando o lugar de onde o sangue brotava. A dor era tanta que o fez desmaiar.

Acordou em sua cama, o corpo dolorido como se tivesse levado uma surra.

Os ferimentos em suas costas estavam limpos e protegidos por uma faixa de gaze branca.

Sentia-se fraco como nunca, mas levantou-se e caminhou até o banheiro. Abriu a torneira e, por algum tempo, apenas observou a água correr.

Foi tirado de seu devaneio por uma forte queimação em seu lombo, baixou as calças e viu que uma marca avermelhada se formava em sua pele branca, como as iniciais marcadas em brasa no couro de um animal.

Tentou se convencer de que aquilo talvez não passasse de uma reação alérgica, mas logo o cheiro forte e adocicado de carne queimada deu lugar a uma onda de dor que o fez se encolher.

Com dificuldade, levantou-se e se curvou sobre a pia para lavar o rosto e enxaguar a boca tentando recuperar o autocontrole.

Para sua surpresa, ao cuspir o liquido viscoso viu, com incredulidade, um de seus dentes cair.

Fitou-se no espelho e tocou os dentes levemente com as pontas dos dedos. Horrorizado, constatou que eles se soltavam com facilidade enquanto de sua gengiva o sangue escorria abundantemente.

Aquilo era loucura.

Leonel foi novamente socorrido e medicado.

Os empregados insistiram em contatar seus pais, mas ele negou e os proibiu taxativamente.

Passou o dia inteiro em sua cama no mais absoluto silêncio, os olhos fechados, quase sem respirar, perguntando-se se estaria sucumbindo a algum tipo de transtorno psiquiátrico, assim como acontecera com outros membros de sua família.

Tinha chegado àquela cidade certo de que um ano de descanso o livraria das crises de estresse que o acometiam desde o fim de seu noivado, contudo tinha a nítida impressão de que estava enlouquecendo.

Estava tomado pelo pânico e o medo o paralisava. Temia ter o mesmo destino de seu pai e seu avô e ser mandado para uma clinica psiquiátrica.

Por outro lado, desejava compreender o que estava acontecendo, afinal, havia visto o sangue escorrer de suas costas e a cicatriz que parecia marcada a fogo se formar em seu lombo, havia sentido a dor do açoite e dos dentes sendo arrancados de sua boca, mas, por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo.

Quando a madrugada chegou, o vulto que Leonel vira há alguns dias retornou junto com o maldito som que sempre ressurgia sem trégua.

A princípio, era apenas uma penumbra que vagava pelos cantos, observando-o enquanto se escondia entre as sombras tortas e inquietas que se projetavam por toda a casa.

Porém, com o passar dos dias, o vulto foi se materializando até se tornar uma presença concreta, sempre por perto, sempre espreitando, vista e sentida apenas por Leonel que não ousava falar sobre aquilo com ninguém.

O jovem escritor isolou-se.

Comia pouco e quase nunca deixava o quarto.

Os empregados, assustados, o ouviam falando sozinho, muitas vezes discutindo em voz alta e respondendo às perguntas que ele mesmo acabara de fazer. 

Todos estavam com medo. Sentiam-se culpados e se questionavam se tinham agido corretamente, pois, sempre que questionados por Leonel acerca da história de sua família, haviam sido evasivos e omissos apesar de saberem que aquela era uma família amaldiçoada.

(...)

Os ventos abolicionistas ainda não haviam soprado com força suficiente em terras brasileiras e, ainda assim, a crueldade do Sr. Manoel Antunes Resende havia chocado até mesmo a conservadora sociedade escravagista da pequena cidade de São Bento, que não se esqueceria  daquela história por várias gerações.

Dionísio era um jovem negro nascido sob a égide da Lei do Ventre Livre e, graças a sua inteligência e perspicácia, desde muito cedo havia se tornado ajudante do Sr. Adib em sua mercearia.

Por anos, Dionísio juntou todo o mísero salário que ganhava em busca de seu único objetivo: comprar a liberdade de D. Thereza, sua mãe e escrava preferida do Sr. Manoel.

Quando o velho fazendeiro soube daquela empreitada, fixou um preço alto para a venda de D. Thereza, garantindo assim que fosse praticamente impossível ao garoto juntar o valor exigido.

Mas Dionísio não era homem de desistir, então, passou a trabalhar de sol a sol, dia após dia, sem descanso. Para ele não exista sábado, domingo ou dia santo, a única coisa que existia era seu objetivo.

Sua determinação e empenho eram apreciados por todos, porém, após vinte anos de trabalho árduo, ele ainda estava longe de juntar todo o dinheiro de que precisava até que foi surpreendido ao herdar, com a morte do velho Adib, todos os bens do homem que morreu sem deixar filhos ou família.

Tão logo os ritos fúnebres foram cumpridos, Dionísio dirigiu-se até o casarão da família Antunes Resende e solicitou uma audiência com o fazendeiro.

Manoel não aceitou recebê-lo naquele dia, alegando estar ocupado com seus negócios, todavia, sabendo que o jovem agora tinha como pagar o valor exigido em troca da liberdade de sua mãe, o fazendeiro se comprometeu a receber a quantia e alforriar D. Thereza no sábado seguinte.

Dionísio preparou a casa em que receberia sua mãe com carinho e esmero. Comprou-lhe uma máquina de costura, uma cama nova e uma colcha de retalhos coloridos. Comprou também um vestido bonito de um pano bom, pois agora ela seria uma mulher livre.

No sábado, conforme combinado, seguiu até o casarão levando numa das mãos um ramalhete de flores e, na bolsa de couro amarrada à cintura, o dinheiro que a libertaria.

Ao chegar ao casarão, foi convidado para entrar e tomar algo. Não queria se demorar ali, mas esperou pacientemente enquanto o fazendeiro abriu a bolsa e despejou o dinheiro sobre a mesa para contar as moedas uma a uma.

Após confirmar que o valor estava correto, Manoel fez um sinal em direção à porta, como que chamando alguém para entrar.

Dionísio olhou ansioso na expectativa ver sua mãe entrar na sala, porém foi surpreendido por três capangas que o agarraram sem lhe dar tempo para se defender e o arrastaram para o terreiro que ficava nos fundos do casarão.

Sob o olhar desesperado e ao som das súplicas de D. Thereza, Dionísio foi espancado, chicoteado, teve seus dentes arrancados, sua pele foi marcada com as iniciais do fazendeiro e, por fim, seu corpo foi pendurado na velha mangueira que fazia sombra no quintal.

Quando os três homens se cansaram de toda aquela barbárie, abandonaram a pobre mulher e seu filho já inconsciente.

Com grande esforço, D. Thereza conseguiu baixar o corpo moribundo de Dionísio, tomou-o em seus braços e o beijou com carinho, deixando que suas lágrimas se misturassem ao sangue de seu menino até que sua alma por fim deixou seu corpo.

Todo aquele sofrimento fez o coração de D. Thereza parar, mas, antes de partir, reunindo o pouco de forças que lhe restava e ainda com o corpo do filho apertado em seus braços, conjurou, na poderosa língua de seus ancestrais, os espíritos novos e antigos, que habitavam o céu e as profundezas da terra e clamou por justiça.

Diante da traição que seu filho havia sofrido, suplicou que a alma daquele homem cruel, que sentia prazer em mantê-la prisioneira de suas vontades, que a forçava a trabalhar sem trégua e que a açoitava e estuprava sempre que desejava, fosse amaldiçoada e condenada a vagar como uma sombra pela escuridão da terra, sem encontrar a paz, até que  ele mesmo infligisse a seu último descendente varão a mesma dor com que havia castigado o corpo de seu filho.

D. Thereza então, com um último suspiro, se entregou ao descanso eterno.

(...)

O sino da pequena igreja soou chamando os moradores para a missa naquele início de manhã em que uma brisa leve, mas persistente, dançava entre as folhas da grande mangueira anunciando a chegada do inverno.

Enquanto as pessoas caminhavam em direção à igreja, de um dos robustos troncos da árvore frondosa e centenária que sombreava o quintal do casarão da família Nunes Resende derramava-se, como um pendulo movendo-se lentamente de um lado para o outro, o corpo inerte do jovem Leonel.

Na pequena São Bento, muitos choraram a morte daquele moço simpático e promissor, porém, a maioria das pessoas sentia-se aliviada, pois após tantos anos aqueles acontecimentos haviam cumprido a lendária maldição e, enfim, a cidade estava livre da alma do velho Manoel Antunes Resende que, desde sua morte, assombrava suas ruas e perturbava sua paz.  

Poucos sabiam, no entanto, que de todos os que sofreram com aquela morte repentina e absurda, ninguém sofrera tanto quanto Joana, a ex-noiva de Leonel, que não se perdoava por saber que aquela tragédia poderia ter sido evitada se ela tivesse lhe contado que estava grávida e esperava um filho dele.

Um filho varão.


CONTO ESCRITO PARA O CLTS 03 DO SITE RECANTO DAS LETRAS
TEMA: MALDIÇÕES


Ausência





Ausência

O vazio me envolve completamente.

Então te procuro pela casa;

E encontro apenas solidão.

Busco por teu cheiro,

Nas roupas, no sofá, nas toalhas.

Mas há tanto tempo você se foi,

Que nada mais resta de ti.

Tento ouvir o som da sua vós,

Porém é apenas o silêncio

Que sussurra em meu ouvido

Me lembrando que você não está aqui.

Quero sentir o sabor da sua boca,

Mas o que sinto é o gosto amargo

Dos amores que se acabam.

Ainda há tanto de você em mim

Então sua falta me deixa oca.

Quero sentir o amor novamente,

Mas só o que sinto é saudade

E a constante presença da sua ausência.



- fefa rodrigues -


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Perdão


Perdão

Na tarde de hoje, passei pelo Café Accorde, meu cantinho para um delicioso e tranquilo café após um longo e exaustivo dia de trabalho.

Ocupei minha mesa preferida e logo fui atendida pela dona do café que já sabe exatamente o que eu peço todos os dias: um pão de batata com requeijão e um cappuccino gelado.

Enquanto esperava meu pedido, me perdi na em minha atual leitura e só despertei quando vi um garoto de chinelos de dedo surrados entrar no local.

Imediatamente percebi alguns olhares que diziam claramente que aquele garoto destoava do ambiente.

O menino, de boné puído, camiseta esgarçada e cheirando à suor, tentava vender panos de prato que ninguém dos muitos clientes se interessou em comprar.

Dei sinal para o menino se aproximar e perguntei se ele estava com fome, ele assentiu balançando a cabeça.

Mandei que ele escolhesse o que queria comer e o que queria beber, ele pegou seu lanche e sua coca-cola e antes de sair do local, para comer sentado na calçada, passou por mim e me pediu desculpas.

Ele não me agradeceu, ele pediu desculpas.

Será que ele queria se desculpar por estar ali estragando meu “mundo perfeito” com sua fome?

Eu fiquei sem palavras.   

A verdade garoto é que sou eu quem tem que te pedir desculpas.

Você e a todos os outros garotos e garotas que andam por aí vendendo balas, sacos de lixo e panos de prato, por favor me perdoem.

Me perdoem por que eu aceito isso como algo normal.

Me perdoe porque é sempre mais fácil comprar um sapato que custa metade de um salário mínimo do que abrir a carteira e te dar um trocado.

Me perdoe porque quando você se aproxima do meu carro para oferecer seus produtos, eu fecho as janelas e faço um sinal negativo.

Me perdoem porque passo mais tempo admirando o que os ricos têm, do que me preocupando com o que os desafortunados não têm.

Me perdoem porque, apesar do meu descontentamento e angústia, apesar da minha indignação e revolta e por mais que, do confortável sofá da minha sala, eu clame por ética e justiça enquanto vejo as notícias absurdas na minha TV de 56 polegadas, passado o momento de revolta, eu sigo minha vida sem tomar qualquer atitude real.  

Me perdoem, por favor, me perdoem por minha falta de ética, de amor, de respeito e de humanidade.


(...)

“Falar em ética é falar em escolha individual. E falar em escolha humana é falar na nossa inescapável falibilidade no pensar e agir.”
Eduardo Giannetti

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Talvez


Talvez

Talvez você tenha me esquecido,
Ou talvez você pense em mim todas as noites,
Deitado em sua cama, antes de dormir.

Talvez você esteja apaixonado por alguém,
Ou talvez você tenha percebido que eu sou
O amor da sua vida.

Talvez o que tivemos nada signifique para você,
Ou talvez eu tenha sido a melhor parte da sua vida,
E isso te assusta.

Talvez você não sinta falta de nossas conversas,
Ou talvez você finja que me conta coisas
E imagina o que eu te respondo.

Talvez você nunca tenha se importado comigo,
Ou talvez, todos os dias, e o tempo todo,
Você precise de todas as suas forças para não me escrever.

Talvez você tenha certeza de que “nós dois” não vale a pena,
Ou talvez você saiba que valemos,
Mas é orgulhoso demais para admitir.

Talvez você esteja feliz sozinho
Ou talvez você sinta minha falta
Mais do que qualquer coisa.

Talvez, apenas talvez.


- fefa rodrigues - 

domingo, 22 de abril de 2018

Refração



Há muito tempo me perdi.

Nesse jogo sem regras, me fiz um peão preso a um tabuleiro que não me pertence.

Que não pertence a ninguém.

E, como a luz que ao atravessar um prisma se divide em todas as cores que a compõe, eu me desfiz em tantas nuances de mim mesma que já não sei quem sou.

Sendo os olhos que choram, fiz de mim a boca que ri.

Sendo o silêncio da noite, fiz de mim o canto do dia.

Sendo o frio que acalma, fiz de mim o calor que consome.

Sendo a paz que consola, fiz de mim a guerra que mutila.

E assim, criei tantas de mim com tão pouco de mim que acabei por tornar-me apenas a refração de uma pessoa.

E, formada por diferentes matizes que se unem na tentativa de tornar-se algo sólido, busco ser mais do que uma mera ilusão.

Sou apenas o que se reflete nos outros.

Ou sou algo mais?



Anunciação




O sol brilha solitário na manhã de domingo e seu calor intenso e sufocante só é amenizado pelo vento fresco que vem do norte e que dança junto às roupas brancas penduradas no varal como dois amantes que celebram um reencontro há muito aguardado.

E a música que o vento canta é como a voz de um anjo bem vindo e parece anunciar sua chegada enquanto te espero sentada nos degraus da varanda, imaginando seus cabelos negros e compridos que se derramam sobre seu peito desnudo.

Penso em sua pele morena e sinto o gosto doce de seus lábios em minha boca e isso faz meu corpo tremer antecipando o prazer pelo qual anseio e que conheci naquela noite de seresta quando, aos pés da Igreja do Divino, nossos olhos se cruzaram e eu baixei a cabeça sentindo o rosto enrubescer, então você veio até mim, segurou minha mão e a beijou, me puxou para junto de ti e me abraçou com força e nós nos movemos numa lenta dança ao som dos violões.

Você pousou a cabeça em meu ombro e sussurrou uma jura ao meu ouvido dizendo que há muitas vidas me procurava, mas que agora sua busca havia cessado e você poderia descansar, pois havia me encontrado. 

Desde aquela noite em que você me fez sua, após prometer que voltaria para me buscar, eu vivo para aguardar a tua volta, eu vivo para ouvir os teus sinais. 

(...)

O texto não é nada de mais, apenas algo que tentei escrever enquanto ouvia Anunciação, mas eu não sou boa com histórias de amor, não consigo fazer um final feliz... de qualquer forma, está aí!!!

O beijo do Anjo




Hoje recebi a visita de um anjo. Seus olhinhos meio puxados me olharam com ternura e ele beijou meu rosto com um estalo, então, me disse que eu estava muito bonita, mas que eu fico melhor sem óculos e que não gostou do meu sapato vermelho e eu acreditei, afinal, ele é um anjo, e anjos não mentem.


O nome desse pequeno anjo é Murilo, ele tem oito anos, é simpático, educado e esperto, gosta de música e de desenhar imitando aqueles desenhos japoneses, até já trouxe algumas de suas obras para eu ver e, toda vez que ele acompanha sua mãe até meu trabalho, ele vem falar comigo, me contar alguma coisa divertida e engraçada.



Hoje ele me contou, todo sorridente e com o rosto vermelho, que está namorando! 


E como eu sei que ele é um anjo, você deve estar se perguntando?


É que quando ele está por perto, tudo fica em paz, a vida ganha uma nova tonalidade e até o dia mais cinzento se ilumina, e eu não consigo deixar de sorrir. Ele me deixa inteiramente feliz quando beija meu rosto e me abraça apertando a bochecha dele na minha!! Isso só pode ser coisa de anjo, não acha?


Ah! Tem um pequeno detalhe sobre Murilo que eu não contei, um detalhe tão insignificante que acaba ofuscado por tudo que esse pequeno anjo é. Ele tem Síndrome de Down.


(...)



Nota: Baseado nos acontecimentos do dia de hoje!!! São tão poucas palavras que nem dá para dizer que se trata de um conto, mas foi algo que me veio à mente enquanto lia o conto "Entre e Luz e a Sombra" da Rain, uma das melhores escritoras lá do site Nyah! e fui surpreendida pelo beijo de um anjo!!

Amélia

O silêncio da manhã foi ferido pelo som abrupto de pancadas na porta despertando Amélia de seu sono tranquilo.

A mulher, após o susto, levantou-se e disse para o marido não se incomodar, pois ela ira verificar quem afinal batia à sua porta àquela hora da manhã e, quando voltasse, prepararia o café da manhã dos dois.

Envolveu-se em seu roupão de seda clara, olhou-se rapidamente no enorme espelho do envolto em madrepérola que ocupava grande parte de uma das paredes do quarto contemplando sua face que, apesar de envelhecida, ainda guardava muito de sua beleza.

Ajeitou os cabelos presos num coque alto e, depois de se certificar de que sua aparência era aceitável, seguiu em direção à porta.

Ao abri-la, deparou-se com dois homens desconhecidos que esperavam para ser atendidos. Os dois estavam vestidos formalmente e tinham rostos sérios e cansados, aparentando terem dormido pouco ou quase nada nos últimos dias.

- Bom dia – comprimentos o homem mais velho e que parecia ser quem comandava a situação - a senhora é Dona Amélia Castelhano Delgado?

- Sim – Amélia respondeu à pergunta sem desejar bom dia. Havia antipatizado com os dois imediatamente.

- A senhora é esposa do Dr. Roberto Delgado?

- Sim – disse mantendo o tom seco e severo.

- Podemos falar com seu marido por um momento?

Amélia ficou em silêncio por alguns instantes e, como num ato reflexo de proteção, fechou melhor o roupão. Seus olhos faiscaram de puro ódio diante da prepotência daqueles dois homens. Seu marido era um advogado respeitado e muito conhecido em toda a cidade de São Paulo, porém tivera que se afastar de suas funções desde que adoecera, porém, a postura daqueles dois homens e a forma como a encaravam parecia dizer que eles desconheciam sua posição e prestígio social.

Não deixaria de apresentar ao síndico do prédio uma reclamação formal contra o porteiro que deixara aquela visita indesejada entrar sem ser anunciada.

Após questionar a alegada identidade daqueles homens e confirmar sua veracidade por meio dos documentos apresentados, abriu passagem para que os dois homens entrassem no apartamento e, com um sorriso gélido, mandou que esperassem na sala de estar.

Os dois homens ficaram ali naquela sala forrada de objetos e móveis elegantes por vários minutos até que ouviram o som do piso de madeira rangendo sob o peso da cadeira de rodas que parecia empurrada com certa dificuldade.

O fedor que já impregnava o ar ali dentro e que justificava as suspeitas levantadas pelos vizinhos tornou-se ainda mais pungente quando Amélia entrou na sala empurrando a cadeira de rodas com corpo de Roberto já adiantado estado de decomposição.

O cheiro de podridão misturado ao aroma da colônia e da loção pós-barba com que Amélia havia besuntado o que restara do rosto do marido era insuportável.

Grandes nacos de pele haviam se descolado por todo o corpo do homem deixando à vista a carne apodrecida que agora tinha uma tonalidade entre verde e marrom. No lugar dos olhos, havia dois buracos de onde pequenas larvas brancas escapavam, a boca descarnada deixava à vista mandíbula de dentes amarelo e o corpo todo exalava o cheiro da morte e expelia líquidos pútridos.    

Amélia havia passado os últimos dias em companhia do marido morto após um ataque cardíaco fulminante e, durante todos aqueles dias, continuou cuidando dele como se sua mente tivesse bloqueado sua percepção da realidade, protegendo-a da dor que a perda do marido causaria.

Quando os policiais que ali estavam tentaram levar Amélia a compreender a situação, ela se desesperou, agarrou-se ao corpo de Roberto dizendo que não permitiria que aquelas pessoas a afastassem e apenas com uma forte sedação foi possível tirá-la.

Amélia passou seus últimos anos em um sanatório e nunca aceitou a morte do marido.

Hoje, os dois estão enterrados lado a lado no Cemitério da Consolação em São Paulo e há quem diga que ainda é possível ouvir, entre as lápides de mármore, as lamentações de Amélia dizendo que Roberto não morreu.

(...)


Nota: Esse conto é baseado numa história real de família e que eu ouvi minha mãe contar muitas vezes. Lá por meados dos anos 70, os vizinhos da irmã de meu avô pediram para que a polícia verificasse o apartamento onde ela vivia com o marido, pois um forte odor de decomposição que parecia vir dali tinha tomado conta do prédio e foi assim que descobriram que ele havia falecido há cerca de uma semana, em decorrência de ataque cardíaco. Ela realmente não aceitou o fato de que ele havia morrido, conviveu com seu cadáver por dias, e acabou internada num manicômio onde ficou até o fim de seus dias. Claro que no conto coloquei toques de ficção, mas a essência da história é triste e real.

Tentador




Da minha cama vejo tão próximo.

Posso tocá-lo se quiser, trazê-lo para junto de mim.

Essa proximidade me põe a pensar que, se em pequenas doses é capaz de me oferecer a pouca paz de que minha mente desfruta, na dose certa poderia me dar a paz perpétua a que tanto almejo.

Perco-me em pensamentos e tento desviar minha mente, fugir da voz que sussurra em meu ouvido dizendo que naquele pequeno frasco de comprimidos brancos está a solução permanente para as minhas dores passageiras.

É tentador te ter ao alcance das minhas mãos quando sei que poderia me levar a flutuar no silêncio eterno, onde nada mais dói e onde nenhuma amarra poderá me prender, onde talvez seja possível ser realmente livre.

Você está ali, me oferecendo alívio e esquecimento e é tão difícil não aceitar, então pego-o em minhas mãos, apenas para olhar mais de perto, giro-o em meus dedos, passo-o de uma mão para a outra.

Abro a tampa e despejo vários comprimidos na palma de minha mão.

Suficiente.

Apenas um passo e tudo acaba.

Apenas um passo e o fim.

Seguro as pequenas pedrinhas brancas por alguns segundos, sentindo seu contato na minha pele, entre meus dedos bem fechados.

A certeza de que a decisão está ali, literalmente está em minhas mãos, me encoraja, então cedo.

Levo-as até a boca, mas eles continuam em minhas mãos.

No fundo, sou fraca.

Fecho os olhos e tento esvaziar a mente de qualquer pensamento, me convencer de que ainda não é hora, de que vale a pena tentar mais um pouco.

Talvez pudesse ser diferente, porém, tudo tem um final e todo final é triste.

Mas o fim, para mim, não virá hoje.