quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Menina Submersa – Memórias


de Caitlin R. Kiernan

Olá apaixonados por livros, tudo bem?

Espero que sim!

Estou bem atrasada nos comentários dos livros que tenho lido, este, por exemplo, eu li na semana entre Natal e Ano Novo e tenho que dizer que realmente me surpreendeu. Peguei emprestado de uma amiga acreditando que se tratava de uma história de terror típico e o que encontrei foi algo totalmente diferente, original e sem deixar de ser assustador.

Um tipo de terror que foge de todo e qualquer clichê e que me fez não parar de ler até o fim.

A história é contada de uma forma cíclica, as lembranças de Imp indo e voltando e a cada vez sendo acrescentadas mais informações e, como a própria autora afirma no prefácio, “este livro é o que é, por isso mesmo ele pode não ser o que você espera”.

Foi uma experiência mais do que interessante e bem perturbadora passear pela mente conturbada de Imp e tentar entender suas lembranças, sem saber ao certo o que era real ou o que era imaginação dessa garota esquizofrênica, numa história que mistura arte, amor, crime, loucura, sereias, lobisomem e esperança de que o amor pode nos fazer sobreviver.

Além disso, o livro em si, a capa, os desenhos que margeiam as páginas, a cor da lateral, tudo nele é lindo.

É um livro tão bom e estranhamente não consigo falar muito mais sobre ele, só posso recomendá-lo!!!


Beijos
Fefa Rodrigues



Nunca fale com estranhos





Era noite de sexta-feira, a melhor noite para caçar e, sem dúvidas, o melhor lugar para encontrar presas era o bar universitário.

Assim que cheguei, peguei uma cerveja e dei uma volta para cumprimentar alguns conhecidos enquanto analisava a qualidade da mercadoria disponível. O lugar estava lotado e logo percebi que o número de mulheres era consideravelmente maior do que o de homens.

Depois de fazer o tradicional reconhecimento, selecionei duas ou três garotas que faziam meu tipo e me sentei para observar e decidir qual seria minha vítima naquela noite. Estava me aproximando da escolhida para dar o bote, uma loira de peitos grandes, quando percebi aquela garota que estava sentada sozinha em uma mesa de canto, com uma garrafa de cerveja quase intocada nas mãos. Ela estava vestida para aparentar mais idade do que realmente tinha e parecia ainda não ter se dado conta de quão sexy era.

Assim que a vi, meus planos mudaram. A loira de peitões ficaria para a próxima, naquela noite eu queria a garota com cara de menina, então, parei há certa distância e fiquei observando até que ela perceber meus olhos sobre ela e pareceu um pouco intimidada com meu olhar ostensivo.

Continuei ali, observando e sorrindo. Demorou um pouco mais do que de costume para ela retribuir meu sorriso dando sinal verde para que eu me aproximasse e essa espera tornaou o jogo ainda mais estimulante.

Pedi licença para me sentar ao seu lado e ela sorriu assentindo.

Ela se chamava Elisa, tinha 21 anos, era estudante de Literatura Inglesa, estava curtindo o último dia das férias que tinha passado na casa da família nas montanhas, antes de voltar para a universidade que ficava em outra cidade.

O cheiro que ela exalava era inebriante e senti vontade de cravar meus dentes em seu pescoço ali mesmo, mas me controlei. Ela deve ter percebido que meus pensamentos não tinham nada de puro e a pele de seu rosto corou me fazendo imaginar que talvez ela ainda fosse virgem e aquela possibilidade aumentou minha excitação.

Depois de mais algumas frases trocadas aleatoriamente perguntei se podia beijá-la e ela apenas abaixou os olhos timidamente. Puxei-a para junto de mim e senti que ela ainda estava tensa, mas aos poucos foi se soltando, seu corpo respondendo às minhas carícias e sua língua passeando em minha boca revelando seu desejo.

Coloquei a mão entre suas coxas massageando suas pernas e ela ofegou me pedindo que eu parasse.

“Não está gostando?” – perguntei aproximando minha boca de seu ouvido e dando uma mordida suave em seu lóbulo e ela respondeu “Sim, mas não aqui”.

“Onde então?” insisti enquanto mordiscava seu pescoço sentindo sua pele arrepiada e torcendo para que ela não sugerisse a minha casa. Eu nunca levava minhas meninas para lá, não queria que as coisas se tornassem pessoais demais.

“Podemos ir para a casa da montanha... meus pais já foram embora, estou sozinha lá... e temos uma jacuzzi...” sugeriu acrescentando aquele detalhe interessante, mas totalmente desnecessário àquela altura, e eu concordei imediatamente.

Engoli o que restava da minha décima cerveja enquanto ela ajeitava a minissaia e saímos para a noite gelada. No estacionamento, agarrei-a novamente e beijei-a com vontade, um beijo molhado e gostoso. Toquei seus seios sob a camisa e ela pareceu gostar daquilo, sua respiração estava descompassada e, para provocá-la ainda mais perguntei: “Sua mãe não te ensinou a não falar com estranhos?”.

Ela sorriu e por um breve instante me pareceu que ela era a caçadora e eu a presa, então, se livrou dos meus braços e, em seguida, entrou em uma SUV prateada e me disse para segui-la com o meu carro.

A casa ficava no alto da montanha há cerca duas horas dali, a viagem seria longa, mas certamente valeria a pena. Minha boca salivava enquanto percorríamos o caminho antecipando a caçada que já se anunciava, uma disputa em que ela era a presa, hora acelerando e se distanciando, hora deixando que eu me aproximasse e eu o caçador, como eu estava acostumado a ser.

A casa se apresentou ao longe totalmente iluminada. Era enorme, devia ter dezenas de quartos e suas janelas de vidro permitiam que os moradores e hospedes tivessem uma vista completa da natureza exuberante que a rodeava.

Estacionei carro e caminhei até a porta aguardando o convite para entrar e confesso que me senti um pouco intimidado pela opulência do lugar. A sala de estar tinha uma lareira elétrica, que ela acendeu com o toque de um botão enquanto eu observava aqueles móveis sofisticados e elegantes. As fotos nas paredes mostravam a família ao redor do mundo. Aquela gente devia ser realmente rica.

Surpreendi-me quando ela segurou minha mão e me guiou escada abaixo até a adega onde centenas de garrafas de vinho descansavam.

“Escolha” ofereceu fazendo um gesto com os braços para abarcar todo aquele espaço.

“Acho que seu pai não vai ficar feliz por eu roubar uma dessas garrafas” argumentei enquanto passava os dedos por algumas daquelas garrafas valiosas.

“Faz uma vida que meu pai não vem até aqui” ela sorriu dando de ombros “Ele não vai notar e, além disso, acho que preciso de um bom vinho para me soltar” justificou e me lembrei da cerveja intocada sobre a mesa do bar.

Escolhi uma das garrafas mais caras e subimos para a cozinha. Ela tirou duas taças de cristal de um dos armários e serviu à bebida vermelha e fresca, o aroma tomou conta do ambiente.

Experimentei a primeira taça e descobri aquele sabor delicioso, então, entornei mais duas taças enquanto ela sorvia devagar o líquido perfumado. Uma gota do vinho escorreu pela lateral da sua boca e eu senti um impulso de morder seu corpo todo.

Ela sorriu e já não parecia tão tímida, talvez fosse álcool fazendo seu trabalho.

Mais uma vez ela pegou minhas mãos, mas desta vez me guiou em direção ao quarto principal onde a cama mais confortável que eu já experimentei esperava por nós e, enquanto eu a despia devagar e seu corpo branco e suave ia se revelando, pensei que provavelmente, no dia seguinte, ela se arrependeria amargamente por ter levado um estranho para dentro de sua casa, mas, naquela noite, eu lhe daria tudo o que ela estava querendo.


                      (...)

Abri os olhos sem conseguir identificar o que havia a meu redor, a luz branca que inundava tudo era tão forte que me cegou e demorou alguns minutos até que eu me acostumasse à claridade e pudesse perceber que eu estava nu, deitado no chão gelado, sem ter a mínima ideia de como tinha ido parar ali. Minha cabeça latejava e havia um cheiro de tinta fresca no ar, mas o que mais me assustou foi o fato de que naquele cômodo minúsculo não havia portas nem janelas.

Fiquei em pé com esforço e me senti enjoado e atordoado. Será que eu tinha sido dopado de alguma forma? Tentei me concentrar buscando me lembrar dos meus últimos momentos na noite anterior e aos poucos as lembranças chegaram.

Uma onda de pânico tomou conta de mim. As paredes pareciam se fechar a meu redor tornando aquele espaço já tão pequeno ainda mais esmagador.

“Elisa!” gritei dando murros na parede. “Elisa, você está ai? Me tire daqui, isso não tem graça... Elisa! Elisa pelo amor de Deus, eu tenho pavor de lugar fechado!! Elisa!” gritava com toda a força que conseguia reunir e comecei a arranhar as paredes a minha volta como se daquele jeito fosse possível encontrar uma saída daquele lugar, meus dedos começaram a sangrar e minhas unhas se soltaram, a dor era imensa mas o desespero era ainda maior e me faria continuar cavando até que meus dedos se desfizessem.

Eu gritei e implorei até perder folego. Recostei-me na parede e escorreguei até o chão chorando e ainda implorando baixinho, contudo a única resposta que recebi foi a luz sendo apagada.


                    (...)

Do outro lado daquela parede recém finalizada, Elisa dava os últimos retoques com a tinta branca e, após terminada a pintura, ela pendurou com extremo cuidado um dos quadros que ela havia pintado especialmente para ornamentar as paredes daquele sala no subsolo da mansão.

Afastou-se alguns passos para trás para verificar como tinha ficado e tendo notado o pequeno desnível entre os lados da tela, voltou para acertá-lo até que estivesse perfeito.

Feito isso, caminhou por toda a extensão daquele lugar admirando suas outras obras que já estavam lá há algum tempo e verificou que ainda havia espaço para mais cinco criptas na parede a lado direito.

“Outros cinco quadros” pensou antecipando o prazer que o processo todo que a levava até ali lhe proporcionava e, antes de deixar aquele lugar e subir o lance de escadas que a levaria a adega e depois ao primeiro andar, deu uma última olhada para quadro que acabara de pendurar se parabenizando por mais um trabalho bem feito, ela sabia que aquelas obras eram mais do que simples quadros pendurados numa parede, eles quadros tinham alma.

Então, apagou as luzes e fechou a porta sabendo que voltaria no próximo ano com mais uma tela para ser pendurada.

- Fefa Rodrigues - 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Insônia



UM


O som do trovão parece explodir dentro do meu quarto e me desperta. Levo a mão instintivamente ao interruptor ao lado da cama, mas a luz não acende. A chuva deve ter derrubado a rede de eletricidade.

Fico ali, quieta, talvez se eu fechar os olhos consiga voltar a dormir. Começo a perder a consciência. Logo estarei vagando por um sono leve.

Estou feliz. Talvez hoje eu tenha uma noite inteira de sono. Ainda é cedo. Não deve ser nem uma da manhã. Tenho bastante tempo... Porque estou pensando nisso? Tento silenciar minha mente. Preciso voltar a dormir antes que o sono me escape, antes que eles cheguem...

Não penso em nada, não penso... silêncio... Estou quase dormindo... o som da chuva lá fora ajuda... A imagem invade minha mente e me desperta.

Não, por favor, não!

O primeiro pensamento chega e sei que ele será seguido pelos demais. Aperto os olhos, não quero ver. Mas a imagem está lá, os pensamentos invadindo minha mente como intrusos, sem serem convidados.  

Vejo meus pais caídos na estrada, tem muito sangue ali, seus olhos estão abertos e me olham. Um acidente que nunca aconteceu, mas que em na minha mente se repete vezes sem fim, me torturando.

Quando aquela imagem se vai, mesmo eu já sabendo o que verei em seguida, sinto a ansiedade me invadir, não quero ver aquilo, mas é inevitável e não consigo afastar aquela cena em que as rodas do carro passam sobre a cabeça da minha irmã, mais uma vez seus olhos abertos me fitam.

Aquilo acaba e então vem a pior imagem, a que me tortura, que faz com que eu me odeie pelo simples fato de cogitar aquilo, belisco a pele do meu braço, arranho minhas coxas, mordo meus lábios com força, as vezes a dor ajuda a afastar os pensamentos, mas hoje isso não acontece, hoje eu tenho que ver minha sobrinha, meu anjo lindo, caindo da janela do apartamento, seu corpo no chão, os olhos abertos.

Respiro fundo tentanto inutilmente me livrar daquilo. Estou suando e sentindo frio ao mesmo tempo. Sei que tenho poucos segundos antes que tudo comece outra vez.

“Não, por favor!” imploro para que minha mente pare de me torturar, para que me obedeça, mas minha mente não obedece, e aquela roleta recomeça, agora girando ainda mais rápido... vejo meus pais, minha irmã, minha sobrinha, meus pais, minha irmã, minha sobrinha, meus pais, minha irmã, minha sobrinha, meus pais irmã sobrinha... tudo se mistura... sangue, olhos abertos... meus pais, minha irmã, minha sobrinha...

A noite se torna madrugada e a madrugada começa a dar lugar ao amanhecer, a tortura está próxima do fim. Enfim, minha mente livre me permite pegar no sono.

Estou exausta física e emocionalmente quando o despertador toca, me dizendo que está na hora de acordar.



- Fefa Rodrigues -


domingo, 18 de fevereiro de 2018

A CASA DAS BONECAS - A morte de Sofia - Parte I


“Fica a esperar-me ali.
 Não deixarei de te encontrar nesse profundo vale.”
Henry King





Parte I

Ela abriu os olhos e contemplou a escuridão absoluta à sua volta. O vento uivava anunciando a chegada da tempestade. Do seu quarto ela podia ouvir os gritos que atravessavam a casa e chegavam até ali. 

- Porque as mulheres tem que sofrer tanto para por filhos no mundo? – indagava-se encolhida entre os lençóis brancos imaculados que cheiravam à lavanda. Aquilo sempre lhe parecera injusto. 

Certa vez, ela havia questionado os pais acerca do assunto. Seu pai, o poderoso e autoritário Sr. Andrade Dantas, sentenciou dizendo que as coisas eram daquele jeito porque Deus assim o queria e que aquilo não era assunto para ela. A resposta não a satisfez, mas o assunto estava encerrado.

Aquela não era a primeira vez que ela ouvia os gritos de uma mulher parindo, contudo, era a primeira vez que a mulher sofrendo era a sua própria mãe e, em sua imaginação, ela via seu corpo branco e magro sendo rasgado ao meio enquanto sangue escarlate se espalhava por todos os lados. 

Essa imagem dominava sua mente quando a porta de seu quarto foi aberta revelando os olhos brilhantes e bondosos de Bianca. 

- Lorena, você está bem? Posso ficar aqui com você, se quiser. – questionou entre os gritos e trovões que ecoavam pela casa. A menina assentiu com cabeça e abriu espaço para que a irmã mais velha se deitasse com ela.

- Bibi, eu nunca vou ter filhos – afirmou.

- Não seja tola Lola, quando você se apaixonar e se casar com um homem belo e gentil vai querer ter seus filhos! - disse a irmã enquanto se acomodava sob os lençóis.

- Não vou, não! – falou com toda a convicção de seus dez anos.

- Além do mais, não sei se isso é seja algo que a gente possa escolher – tentou argumentou.

- Se a gente não pode escolher ter ou não filhos, quem é que escolhe então?

- Deus, eu acho – disse Bianca pensativa.

- Isso é totalmente injusto! – sua voz denunciando a impotência que sentia diante daquela resposta que parecia ser a única que lhe davam quando não sabiam o que dizer.

As duas permaneceram em silencio por alguns minutos, perdidas em seus próprios pensamentos, até que os gritos da mãe que pareciam ter amenizado ficaram muito altos novamente.

- Agora vamos dormir Lolo, amanhã temos que acordar cedo para conhecer nossa irmãzinha!

- Ou irmãozinho – contradisse - Bibi, acho que não consigo dormir com a mamãe gritando tanto.

- E se eu cantar uma canção? – sugeriu começando a cantar em seguida e, assim, abafando um pouco a lamentação da mãe que enchia toda a casa.

As irmãs dormiram abraçadas o sono dos inocentes, alheias a tudo o que estava acontecendo, até que o amanhecer silenciou os gritos de e a noite se despediu levando consigo a mãe e o menino com qual o velho Sr. Andrade Dantas tanto sonhara.

                                                                             (*continua*)

Nota: Esta historia faz parte de "A Casa das Bonecas".

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Cruéis






Um

Quando os alemães chegaram, nós os saudamos como heróis que iriam destruir a foice que nos ceifava e o martelo que nos oprimia e aclamamos sua chegada com festa e júbilo enquanto as mulheres distribuíam flores brancas aos soldados da Wehrmacht.
Parecia que, enfim, viveríamos aquele sonho de liberdade que tinha levado tantos de nós para os porões da Lubianka e de lá para a Sibéria.
Eu tinha quatorze anos e estava eufórico e orgulhoso por ter sido convocado para servir ao comando alemão que se instalara no prédio onde, por toda a minha vida, funcionara a sede do temido governo bolchevique.
Alguns dias após entrada triunfal e festiva das tropas alemãs, eu estava no único café da cidade comendo meu desjejum quando ouvi a proprietária conversando com uma de suas filhas sobre quem ficaria com a casa dos Koschnner quando eles fossem levados.
Naquele estado de espírito em que eu me encontrava, me perguntei quem levaria os Koschnner e porque eles desejariam ir embora agora que estávamos livres dos comunistas, contudo, aquelas palavras não ocuparam meus pensamentos por muito tempo. Havia tanta coisa acontecendo a nossa volta e eu queria fazer parte daquilo tudo.
Na tarde daquele mesmo dia, um novo grupo de alemães chegou a nossa cidade, entretanto, daquela vez não houve flores para saudar aqueles homens que trouxeram com eles uma atmosfera de angustia e medo que tomou conta de todos indistintamente, como se a sombra da morte os tivesse acompanhado até ali.
Havia algo de insano e terrível naqueles olhos claros, como se há muito tivessem deixado de ser olhos humanos. Seus uniformes negros e alinhados, as botas reluzentes e a caveira incrustada na lapela ao lado de duas letras “s” em forma de raios denunciavam que aqueles homens não faziam parte do exército regular e era visível que até os soldados da Wehrmacht sentiam-se pouco a vontade em sua companhia.
Poucos dias depois da chegada daqueles oficiais vestidos de negro, vi toda família Koschnner deixando a bela casa em que vivia na rua principal e percebi que cada um deles levava consigo somente uma pequena mala.
Logo reparei que outras famílias deixavam suas casas e, assim como a família Koschnner, pareciam abandonar tudo, enquanto deixavam para trás a vida que haviam construído e até as lembranças e levavam consigo somente aquilo que lhes era essencial.
Acompanhei aquelas pessoas que caminhavam em um silêncio perturbador que não era rompido nem mesmo pelas vozes das inúmeras crianças que faziam parte do cortejo. Todos eles pareciam devastados e vencidos, e pude perceber que, durante todo o caminho, aqueles que até então tinham sido seus vizinhos e amigos não fizeram qualquer menção de se despedirem daquelas pessoas que conheciam desde sempre enquanto que outros até mesmo fechavam as janelas ou viravam as costas fingindo não ver aquela procissão silenciosa.
Não conseguia parar de me perguntar para onde aquelas pessoas estavam indo até que chegamos à praça central da cidade onde uma multidão já se aglomerava formando filas em frente as pequenas mesas ocupadas por aqueles oficiais de olhos vazios que as interrogava uma a uma para, em seguida, ordenar que deixassem seus pertences ali mesmo e subissem em caminhões que seguiam lotados em direção à floresta.
Todo aquela contabilidade metódica que incluía a anotação do nome de todos os membros da família que seriam levados assim como seu expresso consentimento quanto a entrega de todos os seus bens ao III Reich, levou horas.
Horas em que aquelas pessoas ficaram ali, sob o sol, suportando frio e fome, exaustos e destruídos, após terem dividido a pouca comida que haviam levado para aquela viagem que, talvez agora, quando já não tinham forças para resistir, percebessem ser sem volta.
Fiquei ali hipnotizado por aquela cena, me perguntando por que eles aceitavam aquilo, por que simplesmente não se levantavam e iam embora, afinal, havia muitos mais deles do que daqueles homens de preto e me questionando, acima de tudo e enquanto roía minhas unhas tomado pelo desespero e pela impotência, por que os outros moradores da cidade aceitavam aquela situação.
O dia passou entre as idas e vindas daqueles caminhões que transportavam os homens, mulheres e crianças como se fossem gado sendo levado para o abatedouro e que aceitavam tudo aquilo com a resignação dos vencidos até que a última carga de gente foi embarcada.
Vi quando Davi Koschnner subiu na traseira do caminhão e olhou para trás. Nossos olhos se cruzaram por um breve instante e ele acenou com a cabeça antes de virar-se para encarar seu destino.
O caminhão ainda não tinha deixado a praça quando alguns dos moradores da cidade começaram a aparecer e, por alguns instantes, acreditei que enfim vinham exigir que os alemães revelassem para onde tinham levado seus amigos e vizinhos, mas eu estava enganado, eles estavam ali para garimpar, como abutres, os bens deixados para trás por aqueles que tinham ido embora.
Senti um ímpeto de gritar, de dizer que havia algo de errado naquilo tudo, porém, a única coisa que fui capaz de fazer foi correr em direção ao caminhão que se afastava em direção à floresta. Continuei correndo mesmo quando ele se afastou demais, continuei correndo pela estrada entumecida pelo frio, continuei quando minhas pernas queriam parar e meu pulmão ardia, continuei, continuei e continuei até que, ao longe, ouvi tiros.
Aproximei-me com cuidado e pude ver aquele ritual medonho de corpos pálidos e despidos de tudo que seguiam obedientes em fila até o enorme buraco cavado no chão duro onde se ajoelhavam para que um tiro explodisse suas nucas lançando-os na vala comum.
Quando o último corpo caiu, os homens de uniforme preto se prepararam para deixar para trás mais um dia de trabalho extenuante e seguir em busca de uma boa refeição quente e de seu merecido descanso.
Eles passaram por mim sem sequer me notar encolhido ali em meio aos arbustos e ouvi-os conversando sobre trivialidades, enquanto um deles assobiava um trecho da opera Tosca, de Puccini, como se não sentissem o peso de todas aquelas vidas que haviam acabado de destruir.
A banalidade da conversa frívola e do comportamento despretensioso tornava a crueldade de tudo aquilo ainda mais latente.
Desci a ravina até o grande espaço de terra remexida onde encontrei centenas de corpos abandonados ao relento, sem qualquer resquício de dignidade.
Era difícil assimilar o absurdo de tudo aquilo, ainda assim, eu não conseguia desviar os olhos daquela orgia de morte que cheirava a sangue, urina e fezes.
Reconheci, em meio àquele emaranhado de pele e cabelos, o corpo magro de David Koschnner. Seus olhos, que eram tão azuis quanto os olhos daqueles que o haviam assassinado, ainda estavam abertos e fitavam o céu infinitamente negro acima dele.
De sua boca escorria um filete de sangue e aquela cena me fazia pensar que tínhamos a mesma idade, que havíamos estudado na mesma sala até poucos meses antes e que eu não podia simplesmente deixa-lo lá. Eu tinha que, ao menos, fechar seus olhos para que ele pudesse descansar, para que, da eternidade, ele não visse todo aquele horror.
Então, caminhei com lágrimas nos olhos sobre os corpos que afundavam a minha passagem, até aquele garoto que, mesmo nunca tendo sido meu amigo próximo eu sabia, tocava violino e era ótimo em matemática.
Ajoelhei-me ao seu lado e pedi perdão por nada ter feito para impedir aquilo. Chorei por ele e por todos aqueles que estavam ali, por todas aquelas vidas desperdiçadas e por todos os outros que ainda morreriam daquele jeito. Mas, acima de tudo, chorei por nos que aceitamos aquele crime com naturalidade.
Amanhecia quando enfim toquei a pele de suas pálpebras com cuidado e me despedi fechando seus olhos enquanto os primeiros flocos de neve caiam sobre seu corpo e sobre cada um daqueles corpos como uma mortalha e que seriam esquecidos naquele campo de morte sob o céu da Ucrânia.

(....)

Nota: Este pequeno conto faz parte de um projeto no qual busco escrever a partir de diferentes personagens que vivenciaram a II Guerra Mundial. Se se interessar, leia também "o Salvador" e "Londres, 10 de maio de 1941".

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Casa das Bonecas



UM
Sempre vou me lembrar daquele verão como o momento em que perdi minha inocência de criança para sempre. 
Era férias, eu tinha doze anos e estava entediado.
Todos os meus amigos estavam viajando, apenas eu estava em casa.
Meu pai era aquele cara que se orgulhava por nunca tirar férias, por trabalhar até tarde e por ter centenas de dias de folga acumulados, então, para mim todos os anos eram iguais, eu via meus amigos deixarem a cidade para voltar ao final de alguns dias cheios de histórias que eu ouvia com inveja.
Naquele ano, contudo, decidi que seria diferente. Eu teria uma história para contar, pois naquela noite quente e sem lua eu iria explorar o “Casarão”.
O “Casarão”, como era chamado por todos, era uma construção onipresente fincada no alto de uma colina. Tinha sido a casa da poderosa família Andrade Dantas em seus dias de glória, mas agora não passava de uma construção decadente que insistia em se manter em pé e que povoava o imaginário local.
Há muito tempo os bens da família tinham sido vendidos enquanto sua fortuna minguava, até restar apenas a construção de proporções impensáveis obrigada a dividir espaço com os minúsculos prédios dos conjuntos habitacionais que se multiplicavam por toda a encosta.
Era lá que o velho Sr. Andrade Dantas tinha passado os seus últimos dias de vida, preso a uma cama e em companhia de sua última filha, a quem ninguém sabia ao certo o que teria acontecido após a morte do pai.
Meus amigos e eu sempre falávamos sobre invadirmos aquele lugar que assombrava nossos pensamentos e que inspirava as histórias sobre a crueldade daquela família que eram contadas de boca em boca, porém nunca tivemos coragem suficiente para levar nossos planos até o fim.
Por isso, quando meus amigos soubessem que eu havia feito aquilo sozinho, ficariam impressionados.
Assim que meus pais dormiram, sai em direção à noite e da entrada da minha casa avistei a construção fantasmagórica.
Aspirei o ar noturno sentindo um forte cheiro de flores e quase desisti antes mesmo de dar o primeiro passo, então me recordei de como me sentiria caso não tivesse nada de interessante para contar quando as férias chegassem ao fim e isso me deu coragem e me fez seguir em frente.
A juventude nos faz tolos.
Enquanto caminhava, um fio de suor gelado escorria por minhas costas. Senti uma mescla de medo e ansiedade, contudo, conforme a noite me envolvia, fui me tornando mais confiante.
A cada passo que eu dava, o casarão parecia crescer à minha frente muito mais rápido do que esperava, cheguei às altas paredes de pedra que guardavam o lugar.
Permaneci por vários minutos observando aquele total abandono que intimidava. O silêncio gritava dizendo que eu não era digno de entrar. Segurei as barras de ferro devoradas pela ferrugem e empurrei, no fundo desejava que não se abrissem.
As dobradiças rangeram num choro triste e os portões se moveram com facilidade dando acesso ao jardim.
Com as pernas trêmulas, caminhei em meio àquele emaranhado de arbustos. A folhagem arranhava minha pele tentando me expulsar dali até que cheguei aos degraus de pedra branca carcomida que levavam à varanda e à porta de entrada.
Silêncio e escuridão reinavam absolutos.
Concentrei-me no meu plano: entrar na casa, tirar algumas fotos e sair em seguida. Quanto mais rápido eu enfrentasse aquilo, mais rápido eu poderia voltar para minha cama.
A porta principal era de carvalho e parecia ser muito antiga. Ainda era possível ver as iniciais da família incrustadas na madeira. Bati de leve com os nós dos dedos e o eco seco denunciou o interior devorado por cupins.
A porta estava trancada, então contornei a casa atravessando a varanda decrépita. O telhado de madeira estava totalmente danificado. Alguns móveis há muito  apodrecidos disputavam espaço com as inúmeras camadas de folhas secas que forravam o chão.
Mesmo diante daquela situação deplorável, não foi difícil imaginar a rica família, em noites quentes como aquela, sentada nas cadeiras elegantes e cercada por criados que serviam chá gelado.
Aquelas pessoas que sequer arrumavam suas camas pela manhã, podiam desfrutar alegremente dos prazeres que a fortuna nascida do trabalho de centenas de homens, mulheres e crianças que consumiam suas vidas e saúde colhendo o ouro verde que brotava em seus campos,  lhes proporcionava.
Ali fora a parede era adornada por azulejos que formavam mosaicos com temas campestres. Eram pintados à mão e, como todos sabiam, tinham vindos da Inglaterra, assim como os vitrais tinham vindo da Itália e, na suíte principal, havia um lavabo português que custara o equivalente a um ano de salário de um trabalhador do campo.
Decidi fazer minha primeira fotografia ali.  O flash da máquina partiu a escuridão e eu tive a estranha sensação de a luz branca havia despertado algo adormecido no interior da casa.
Já não sentia medo. O ar de decadência me fascinava, me atraia e me fazia desejar ver mais.  
Forcei algumas das janelas francesas que se espalhavam por toda a lateral da casa até que uma delas cedeu abrindo passagem para o interior da casa.
A penumbra me convidou a entrar e eu aceitei o convite. Estava ávido por mais daquilo tudo. Ali dentro, tateei a parede áspera e empoeirada até encontrar um interruptor imaginando se a casa ainda dispunha de energia elétrica.
Um som de estática cortou o ar que cheirava a queimado e, por uma fração de segundo quase imperceptível, a lâmpada acendeu para, com um estalo, apagar-se em seguida, após iluminar o ambiente por tempo suficiente para que eu pudesse ver um par de olhos brilhando.
Caminhei naquela direção com a certeza de que um gato tinha encontrado refúgio em meio àqueles sofás antigos e mofados e crendo que isso me daria uma boa fotografia.
Lembrei-me da pequena lanterna que estava no meu bolso. Um forte facho de luz surgiu revelando um par de olhos estáticos. Dei alguns passos para traz assustado. Algo em que bati caiu quebrando-se em milhares de pequenos cacos de porcelana.
Virei-me devagar iluminando tudo à minha volta e, para meu espanto, percebi que estava sendo observado por dezenas de outros olhos iguais àqueles.
Eram olhos de vidro. Olhos sem vida. Olhos de bonecas.
Aquilo era realmente sinistro e eu precisava fotografar tudo ou ninguém acreditaria em mim. Disparei o flash da câmera que explodia na escuridão revelando aqueles rostos perfeitos de fisionomias indecifráveis, seus pequenos corpos vestidos com esmero e posicionados como se fossem moradores da casa.
Algumas estavam reunidas em volta de uma mesa arrumada para o chá, outras estavam sentadas nos sofás e otomanas distribuídos pela sala, tinham consigo livros e trabalhos manuais, como se se dedicassem a cozer, tricotar e ler. Havia, ainda, algumas sentadas à mesa de jantar e, por fim, avistei outra ao piano, a cabeça inclinada em direção às teclas de marfim amarelado como se se preparasse para tocar.
Estava tão absorto na tarefa de fotografar aquele show de horrores que só percebi o som do riso distante e artificial quando cheguei à escada que levava ao primeiro andar.
Hoje me pergunto como aquele som terrível não me fez sair dali, mas havia algo naquele lugar de sombras e esquecimento que me atraia e, em vez de voltar para casa, subi por aqueles degraus apodrecidos que rangiam a cada passo que eu dava.
Chamei perguntando estupidamente se havia alguém lá em cima, sem receber qualquer resposta. O silêncio absoluto tornava aquela exploração ainda mais convidativa.
A escada terminava em um corredor longo, com portas dos dois lados que, provavelmente, levavam aos cômodos que um dia serviram de quartos para a família, então, me lembrei da história do lavabo português e percebi que fotografar aquela peça seria a chave de ouro que fecharia minha grande aventura.
Não fazia a menor ideia se aquela história era real, se o lavabo ainda estava lá ou qual daquelas portas levava à suíte principal, portanto, decidi começar pela primeira à direita e, para minha decepção, por mais que eu a forçasse, ela não cedeu um milímetro sequer.
Temi que todas as demais estivessem trancadas e que minha grande aventura terminasse. Testei mais quatro ou cinco portas sem sucesso até chegar à última, que aceitou meu pedido e se abriu para que eu entrasse.
O ar ali dentro tinha um cheiro adocicado de podridão o que me fez imaginar que devia haver algum animal morto por perto. Assim que passei pela porta percebi que havia algo diferente naquele cômodo. O quarto estava mobilhado com os mesmos móveis antigos e deteriorados que se espalhavam por toda a casa, mas o lugar estava limpo. No centro havia um berço de madeira lustrada sobre o qual pendia um móbile com pequenas bonecas de pano.
Aquela cena era ainda mais bizarra do que tudo o que eu tinha visto até então. A curiosidade fez com que eu me aproximasse.
Pude ver que, sobre os lençóis de linho branco, havia uma boneca muito maior do que todas as outras que habitavam àquela casa. Parecia-se com uma criança de oito ou nove anos, estava vestida com uma camisola de renda clara, os cabelos ruivos estavam trançados e seus olhos estavam fechados. A pele era ressequida e muito amarelada, como pergaminho e o cheiro de podridão vinha daquele leito imaculado.
Não resisti à tentação e estendi minhas mãos para tocá-la, mas fui atraído pelo som das molas de uma cadeira de balanço se movendo num dos cantos escuros do quarto seguido por um movimento súbito. Não tive chances de me defender. Uma pancada forte atingiu minha cabeça e a última coisa que ouvi antes de perder os sentidos foi à voz medonha dizendo “Ela é linda, não é?”.
*
Quando despertei, levei alguns minutos para entender que não estava em minha cama. Aos poucos, fui me lembrando do que havia acontecido: o casarão, as bonecas, a criança no berço, a pancada.
Tentei me levantar, mas não consegui me mover, não sentia minhas pernas.
Apalpei os bolsos e o chão ao redor em busca da lanterna sem encontrá-la. Forcei meus olhos na escuridão e percebi que ainda estava no cômodo onde havia sido agredido.
Gritei pateticamente por socorro, mas ninguém veio me salvar. Com muito esforço, me arrastei em direção à porta que se abria para o corredor que me levará até aquele pesadelo, meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas de dor e medo.
Estava há um ou dois metros da porta quando senti unhas afiadas agarrando meus cabelos e sacudiu minha cabeça com violência. “Você entrou aqui sem ser convidado, agora não vai mais sair garoto estupido!” aquela voz rouca e velha destruiu o que restava da minha coragem e sugou minhas forças.
Deixei-me ser arrastado escada abaixo e ser jogado ao chão. Apesar do calor sufocante, a lareira estava acessa e a luz que emanava dela iluminou o rosto daquela mulher franzina e estranhamente forte.
Era um rosto enrugado, velho e mau.
Seus olhos fundos e revoltos denunciavam a loucura de sua mente.
Ela me deixou ali e sentou-se à mesa da sala de jantar. Havia mais alguém com ela. Estavam sentadas de costas para mim e pareciam conversar, mas eu não pude distinguir sobre o que sussurravam.
Logo, a conversa se tornou discussão e após algumas palavras ditas com mais entusiasmo, a velha voltou para perto de mim.
“Nunca vou entender sua atração por essa gente, Sofia” disse enquanto vinha em minha direção “Meu pai sempre tratou a gentinha dessa laia com severidade, um bando de vagabundos se quer saber... Sente-se garoto” ordenou enquanto me puxava pelo cabelo e me lançava sobre um daqueles sofás mofados me olhando com nojo. “Vou trazer Sofia até aqui, ela quer te conhecer, então se comporte.”
O pavor me obrigou a engolir o uivo de dor, vi que minhas pernas estavam muito feridas, mas simplesmente não conseguia me lembrava de quando ou como aquilo tinha acontecido. A dor era lancinante.
Olhei para a velha que voltava para onde eu estava empurrando uma cadeira de rodas. Havia uma criança sentada nela e senti uma tola esperança de que ela me ajudaria a sair dali.
A velha carregou a criança com cuidado e colocou-a sentada no sofá à minha frente, a luz da lareira iluminou seu rosto. As orbitas vazias e sem vida me fizeram acreditar que se tratava de mais uma daquelas malditas bonecas que povoavam a casa.
A velha afastou-se e eu pude ver que aquela era a criança que estava deitada no berço lá em cima e, agora que estávamos muito próximos, eu compreendi, para meu total desalento, que aquela não era uma criança ou outra boneca. Aquilo era um corpo infantil embalsamado.
Naquele momento me esqueci da dor e do medo e tudo que consegui sentir foi uma onda de náusea, estremeci e coloquei para fora o que restava do meu jantar.
Ao ver aquilo, a velha veio em minha direção com ódio em seus olhos loucos e eu não conseguir me esquivar do golpe que atingiu meu rosto fazendo meu sangue respingar na parede.
“Menino idiota, não sabe se comportar como gente? Seu verme nojento! Eu devia te fazer lamber essa sujeira toda!” gritava enquanto esmurrava meu rosto, minha cabeça, minhas costas e eu tentava debilmente me defender.
Comecei a chorar e a gritar tomado pelo pânico e, quanto mais eu gritava, mais ela me batia dizendo que eu estava assustando Sofia com toda aquela gritaria.
“Ela está morta!” gritei num impulso impensado e por um instante a mulher parou de me bater, um vislumbre de lucidez cruzou o seu olhar, ela virou-se em direção àquele corpo morto, olhou para mim e mais uma vez golpeou meu rosto com força me abandonando.
Eu chorava baixo, tentando não fazer barulho, na esperança de que se esquecesse de mim, então ela sentou-se ao lado da menina morta e começou a cantar uma cantiga infantil enquanto trançava seus cabelos.
Tive certeza de que morreria naquele chão sujo. Pensei em meus pais e me dei conta de que ninguém sabia que eu estava naquela casa. Contemplei todos aqueles olhos mortos que me observavam e senti as lágrimas escorrendo através dor meu rosto.
Desejei mais do que tudo poder ver minha mãe novamente e a visão do seu sorriso fez uma centelha de esperança nascer dentro de mim. Eu precisava ao menos tentar. Olhei ao redor em busca de algo que pudesse me servir como arma, mas vi apenas moveis velhos, o fogo da lareira e as bonecas.
Fechei os olhos tentando me concentrar e pensar em algo, e só conseguia ver o fogo que crepitava perto de mim. Estiquei meu corpo torturado e dormente até alcançar uma daquelas bonecas, a velha continuava de costas, cantando com sua voz grotesca.
Puxei o pequeno corpo estéril para junto de mim e me arrastei em silêncio até a lareira. A dor era tanta que tive certeza de que iria desmaiar. Parei por alguns segundos para descansar e reunir toda força que me restava, aquela seria minha única chance e se desse certo, tudo aconteceria rapidamente.
Quando me senti pronto, coloquei a cabeça da boneca no fogo, as chamas lamberam seus cabelos e logo se grudaram ao plástico que derreteu exalando um cheiro enjoativo, a cabeça da boneca começou a queimar, olhei para a velha que ainda estava compenetrada em sua tarefa e lancei a boneca em chamas sobre um dos sofás de pano e madeira que ocupava o centro da sala, o fogo espalhou-se em segundos engolindo tudo em seu caminho até alcançar algumas das bonecas que estavam por perto.
Quando a velha se deu conta do que estava acontecendo, o chão de madeira já queimava. Ela soltou um urro medonho e correu em direção às chamas tentando em vão apagá-las com tapas que fizeram as palmas de suas mãos se transformarem em enormes bolhas enchendo a casa com o cheiro de carne queimada.
Ela sequer se lembrou de que eu estava ali. Era minha oportunidade. Eu tinha que fugir daquele inferno de fogo que corria descontrolado por todos os lados devorando tudo. Vi quando a escada de madeira por onde eu havia subido começou a arder e se partiu e a visão daqueles rostos de plástico derretendo me obrigou a enfrentar a dor e a sair dali imediatamente.
Não havia tempo a perder, o fogo consumia tudo e não demoraria a que a casa toda viesse abaixo.
Me arrastei em direção à janela por onde eu havia entrado. A velha gritava como um animal alucinado, enquanto enfrentava o fogo, tomada pela loucura, tentando salvar aquelas bonecas como se fossem suas crias.
Então, as cortinas de brocado foram atingidas  pelo fogo levando até a sala de jantar as chamas que se agarraram às roupas de Sofia.
Ao amenina queimando, o rosto da velha se contorceu revelando um dor e desespero, ela abandono toda aquelas bonecas e correu até o corpo inerte que estava sendo consumido e agarrou-se a ele.
Vi aqueles dois corpos unidos em um abraço infernal serem engolidos sem piedade, os cabelos brancos da velha e os cabelos ruivos de Sofia se mesclando em um emaranhado de fios derretidos, a pele do rosto daquela mulher assustadora derretida se soltando da carne e revelando os ossos da face magra, enquanto o fogo exorcizava toda a loucura do seu olhar.
Em um último impulso, consegui sair pela janela que tinha me levado ao interior daquele lugar onde eu tinha conhecido a dor, a morte e a loucura, me arrastei até o jardim tentando correr para o mais longe que meu corpo dolorido conseguisse me levar.
Cai na grama atingindo o limite das minhas forças e, antes de fechar os olhos, vi que as labaredas dominavam toda a construção que ardia e estalava sob o céu negro, então, ouvi as sirenes se aproximando e me abandonei ao torpor.
Talvez eu estivesse a salvo.
*
A história daquela noite fez de mim o garoto mais popular da cidade por algum tempo. Todos queriam ouvir sobre as horas de terror que eu passara no casarão até que outros fatos foram sendo revelados e minha versão acabou dando lugar às novas especulações
O exame da arcada dentária de Sofia revelou que ela era, na realidade, Ana Beatriz, uma garota de oito anos  que vivia num dos prédios do conjunto habitacional e que estava desaparecida há mais de dez anos, tendo sido dada como morta desde então.
Eu ainda estava no hospital quando recebi a visita de seus pais, eles me trouxeram uma fotografia da menina e eu reconheci os longos cabelos ruivos, eles me agradeceram com lágrimas nos olhos por sua filhinha ter sido enfim encontrada e por a pessoa que lhe fizera mal ter pagado por isso.
Trataram-me como se eu fosse um herói e eu imaginei se eles pensariam o mesmo caso tivessem me visto chorando e tremendo enquanto apanhava.
Mas, o que mais causou especulações foi a descoberta de dezenas de restos mortais enterrados nos jardins dos fundos do casarão.
Coincidência ou não, o número de corpos encontrados correspondia exatamente ao número de restos de bonecas contabilizados pela perícia no interior da casa.
Todos aqueles pequenos corpos eram de bebês recém-nascidos e datavam de mais de quarenta anos, o que levou a crer as pessoas crer que eram todos frutos da relação ilícita entre o velho Sr. Andrade Dantas e sua própria filha, que acabara enlouquecendo, e que aquele cemitério garantia que a honra da família fosse preservada.
E assim, surgiu mais uma história envolvendo aquela família, que nunca seria comprovada, mas que seria contada de boca-em-boca por muito tempo.  
Eu sobrevivi e, apesar de ainda mancar um pouco, me recuperei de todos os ferimentos físicos que me foram causados naquela, porém, eu jamais consegui me libertar daquela imagem que me persegue desde então e, toda as noites, quando fecho os olhos esperando o sono chegar, sou assombrado pelos olhos da velha louca sendo devorados pelas chamas enquanto ela se agarra à sua pequena Sofia.
     
                                                   (...)